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Neuroplasticidade

 

“Neuroplasticidade” é o tema abordado por Dra. Quézia Anders neste Podcast do canal “30min de Neuromarketing” conduzido por Cibele Marques de Souza, Diretora de Marketing da FasTest Brasil e João Pentagna, sócio-fundador da Atingir +.

Quézia é Biomédica, PhD em Neuropsicofarmacologia e professora da Faculdade de Medicina da Santa Casa de Misericórdia Vitória-ES.

 

Tópicos abordados neste episódio:

- O que é Neuroplasticidade.

- Por volta dos 60 anos de idade as possibilidades criativas são expandidas?

- Como o cérebro se modifica durante a vida

- Neuroplasticidade nos processos de aprendizado

- Como hábitos saudáveis podem auxiliar o processo de criação de novos neurônios

- Como hábitos não saudáveis podem prejudicar nosso cérebro

- Como a Neuroplasticidade pode auxiliar na prevenção e tratamento de doenças

- Qual a relação entre a criatividade e a neuroplasticidade

- Porque o processo de esquecimento é saudável

- Quando acontecem as melhores ideias?

- Dicas de como aumentar a Neuroplasticidade do cérebro.

Quézia inicia o episódio dizendo que é doutora e professora em neuropsicofarmacologia e também de genética médica, que estuda toda parte molecular das neurociências.

 

Ela explica que neuroplasticidade é a geração de novas conexões neuronais. São novos caminhos que nós fazemos entre os neurônios ou mesmo o fortalecimento de caminhos já existentes. Esses caminhos, na neurociência, são chamados de neurocircuitos. Isso tem a ver com a geração de memória e novos hábitos.

 

Cibele comenta que saiu uma matéria na Exame dizendo que, por volta dos sessenta anos de idade, existe uma interação dos hemisférios de direito esquerdo do cérebro que o deixa mais harmonioso e expande as possibilidades criativas. Deu a entender que o cérebro começa a funcionar no modo turbo, então questiona se isso é verdade e se o cérebro se modifica durante a vida.

 

Quézia responde que, na verdade não há melhora. Nós temos a capacidade de gerar essas novas conexões, neuroplasticidade em qualquer fase da vida. Ela é mais intensa durante a infância, adolescência, início da idade adulta, quando a gente está amadurecendo a região do pré-frontal, que é o centro onde essa neuroplasticidade ocorre e isso está acontecendo em toda fase, inclusive aos sessenta, inclusive aos cinquenta. Qual é a diferença abordada nessa matéria, então? A diferença está relacionada com o estímulo que é dado. Se estamos dando um estímulo para aprender algo novo, para de fato conhecer algo novo, estamos favorecendo a neuroplasticidade, então essa interconexão entre os hemisférios é favorecida.

Ela diz que um grande desafio no mundo é em relação a educação das crianças e adultos, pois cada um tem as suas particularidades, suas dificuldades e suas vantagens. No entanto a neuroplasticidade vai acontecer igual nos dois, mas vai acontecer mais intensamente nas crianças. A grande questão é que quem controla bastante isso é essa área cerebral do pré-frontal, que não está cem por cento desenvolvida nas crianças. Então as crianças vão aprender muito por estímulos associativos. Isso não quer dizer que os adultos também não aprendam assim, mas no caso dos adultos é mais fácil colocar significado e valor nas coisas. Então, nesse caso, as neuroplasticidades estão acontecendo, mas elas vão sofrer um pouco essa variação do estímulo que vai ser mais favorável para crianças. Mas, por exemplo, existem cursos de inglês que estão aplicando todas essas técnicas para favorecer o aprendizado do idioma, que são aqueles de imersão total. Nesse caso eles mexem tanto com valor, significado, cores, imagens, às vezes até realidade virtual. Eles estimulam esse cérebro de todas as formas, que é o que precisamos para gerar essa neuroplasticidade.

Quando usamos o cérebro para fazer exercício, pensar em problemas, é isso que faz com que tenhamos neuroplasticidade ativa para que não caiamos naquele vale de “estou com mais idade então minha cabeça não está funcionando direito”. Além disso tem outras coisas que também influenciam: como o exercício físico, alimentação e sono, que são estimulantes nesse processo de neuroplasticidade. Sem sono não é possível fortalecer a neuroplasticidade, nem mesmo estimulá-la, nem mesmo equilibrá-la. Sabemos que existem algumas fases moleculares para isso acontecer, então são ncessários certos estímulos para o aprendizado acontecer. É preciso ler, escrever sobre isso e ocorrer o descanso, ou seja, dormimos e, durante o sono, o cérebro vai reforçando aquilo que foi importante durante o dia. E para ser importante é preciso ter tido foco e concentração.

 

Quézia diz que a alimentação é muito importante porque, sem neurotransmissores, que são as químicas cerebrais, não é gerada a neuroplasticidade. Dois neurotransmissores são muito importantes para o processo de geração de memória, o glutamato e a serotonina.Mais de noventa e cinco por cento da serotonina é produzida no intestino, através de uma alimentação saudável, inclusive com uma base muito importante que é o triptofano. Então, alimentos ricos em triptofano vão favorecer a síntese de serotonina. São alguns deles a banana, vegetais verdes escuros e nozes, por exemplo. É necessário tudo isso funcionando para gerar uma boa neuroplasticidade.

 

O sono influencia a neuroplasticidade, inclusive para aquelas pessoas que trabalham de noite e dormem durante o dia, mesmo que oito horas. Isso influencia na neuroplasticidade porque, quando dormimos durante o dia, somos expostos a luz, que estimula a liberação de cortisol. O cortisol ativa nossas células e o nosso metabolismo para todas as funções do dia. Durante a noite temos a redução desse hormônio e a produção de melatonina, que inclusive sua base também é a serotonina. Então se temos baixa de serotonina, temos baixa de melatonina que é o hormônio do sono. Logo essa pessoa vai ter dificuldade para dormir e vai ter problema com a neuroplasticidade. Dessa forma, trocar o dia pela noite, não é interessante. Quézia cita que observa vários relatos de pessoas que trabalham à noite e dormem durante o dia cujo primeiro sinal de alerta é o prejuízo de memória e de concentração.

 

Ela diz que os estudos sobre neuroplasticidade dizem que, após um AVC, após uma lesão, conseguimos ainda gerar neuroplasticidade com os neurônios que permaneceram saudáveis. O último artigo que saiu em 2019 colocou três fatores importantes para a neuroplasticidade nesse processo pós-lesão:

  • Alta habilidade cognitiva. São aquelas pessoas que se desenvolvem intelectualmente, estudam bastante, leem, conhecem coisas novas, estudam novos idiomas. Habilidade cognitiva é o primeiro ponto para favorecer a neuroplasticidade pós-lesão.
  • O segundo ponto são interações sociais. Conhecer pessoas novas, gerar esses estímulos até mesmo com quem já conhecemos. O reconhecimento facial, expressões faciais, tudo isso favorece a interação socioemocional. Esse é um estímulo importante para o cérebro
  • O terceiro ponto é a atividade física. Sem atividade física não produzimos neurotransmissores essenciais para o processo de neuroplasticidade. Precisamos desse estímulo não só para a produção de serotonina, mas para o aumento de oxigenação do cérebro, para o aumento da conectividade. Quando fazemos atividade física, aumentamos os batimentos cardíacos, mais sangue, mais oxigênio é colocado para dentro do cérebro, então estamos também favorecendo esses estímulos moleculares que a neuroplasticidade exige.

Se a pessoa come mal, dorme mal e não se exercita, seu cérebro entra em colapso. Quézia diz que estudos comprovam que uma noite de sono perdida, altera totalmente o metabolismo, podendo ser um fator de risco para a morte neuronal. O último estudo que saiu, recentemente, fala que o ideal é uma média de seis horas e meia a sete horas e meia de sono por noite. É o mínimo para ativarmos a neuroplasticidade.

 

Cibele diz que é bem regrada em manter a rotina de dormir de sete a oito horas por noite para ter um bom dia de trabalho no dia seguinte. Diz que, quando se fala em trabalho, vida profissional, a criatividade é muito importante porque, muitas vezes o planejamento não pode ser executado e os problemas têm que ser resolvidos.

 

Quézia diz que existe uma relação entre criatividade e neuroplasticidade. A neuroplasticidade vai favorecer o fortalecimento de redes cerebrais e a geração de novas redes. Então quando temos um cérebro que está sempre estimulado com a neuroplasticidade, é um cérebro que é mais criativo. Ela cita algumas dicas:

  • sono de qualidade durante a noite
  • durante o seu dia, tirar momentos para respirar, fazer um mindfulness durante dez, quinze minutos. Isso pode ser essencial para a criatividade porque durante esse tempo estamos estimulando a conectividade cerebral, a própria neuroplasticidade e uma rede basal do cérebro (rede de modo padrão). Essa rede ela está muito envolvida com foco, com concentração e com a criatividade também. Então, são nesses momentos que vamos fazer uma caminhada ou ficamos em silêncio, sem fazer nada, sem olhar o WhatsApp, que reequilibramos o cérebro.

Quézia diz que escutamos bastante as pessoas associarem neuroplasticidade ao aumento da sua capacidade de memória, de armazenamento, como se fossemos um computador. Esquecer também faz parte de um cérebro plástico. Na verdade, nós temos a capacidade de aprender várias coisas, mas não quer dizer que quanto mais estímulo tivermos, mais aumentamos nosso potencial. O próprio cérebro vai desconectar alguns neurônios e conectar outros.

 

Esquecer algumas coisas acontece muito frequentemente pois temos um tipo de memória que é chamada memória de trabalho, que é a de curto prazo. Essa é uma memória mais simples, é aquela que vemos um telefone na rua, memorizamos aquele número para ligar logo depois. Não tem necessidade do cérebro ficar guardando aquilo o tempo todo. A memória de longo prazo, por outro lado, é a que está relacionada com a neuroplasticidade.

 

O estímulo para aprendizado já precisa ser um pouquinho mais repetitivo. É aquele que vamos criando memórias durante o passar do tempo - como o aprendizado de uma nova língua ou de uma dança. Depois que o geramos, aquele conhecimento, ele fica guardado. Podemos esquecer algumas coisas que não são tão relevantes assim para fixar aquelas que são relevantes.

Cibele diz que não lembra mais nada! Cita que esse exemplo do telefone não funciona mais para ela pois, depois dos smartphones, consegue mais decorar números. Diz que tem a sensação de ter ficado meio preguiçosa para decorá-los. Quézia diz que isso ocorre porque não estamos tendo mais o estímulo. Conta que, como professora fica estimulando os alunos para escreverem à mão as atividades que ela passa após as aulas, justamente para favorecer esse processo de memória e neuroplasticidade. A escrita é muito importante também para aumentar a conectividade cerebral e gerar neuroplasticidade.

 

Complementa dizendo que escrever no tablet tem diferença do que escrever no papel. Ler no computador e lê no livro tem diferença. Ler no livro físico e escrever no caderno gera mais neuroplasticidade. Quando escrevemos no caderno temos a sensação de que sabemos exatamente o que escrevemos, enquanto que, escrever alguma nota no celular ou no computador parece que ela não sai da nossa cabeça, é transferida para um outro lugar. Isso acontece porque criamos mais memória porque estamos ativando áreas cerebrais do tato, que é a área somato sensorial, a visão, a área relacionada a formação de palavras. Resumindo, ativamos várias áreas cerebrais, muito mais do que só digitar no computador.

 

Quézia explica os “momentos eureca!”. Geralmente eles acontecem fora do ambiente onde estavamos inserido quando a questão a ser resolvida apareceu. Explica que o trabalho é um momento de estresse e de pressão. O estresse aumenta a adrenalina e o cortisol no nosso corpo. Principalmente no nosso cérebro essa área é ligada ao centro da inteligência que é o pré-frontal. O excesso de adrenalina e cortisol nessa área confunde essa área cerebral, fazendo com que os pensamentos, a criatividade, a resolução de problemas, fique muito saturada. Então quando vamos para casa, tomamos um banho, fazemos uma caminhada, diminuímos esses hormônios. Saímos daquele ambiente, não nos sentimos pressionados, não ativamos o circuito de medo, ansiedade e estresse. Quando relaxamos essa área cerebral pode ajudar a desenvolver uma resolução mais criativa para um problema.

Como últimas dicas para melhorar nossa neuroplasticidade Quézia cita novamente o sono de qualidade, alimentação, atividade física, descanso passivo (descanso em silêncio). Além disso ela dá mais outras duas que estimulam bastante a neuroplasticidade.

  • Uma delas é o mindfulness que é aquela meditação plena voltada para o momento, para a respiração. Pensar sobre a respiração parece uma coisa muito óbvia, mas ela é controlada involuntariamente. Quando paramos para pensar nela, estamos aumentando a capacidade do cérebro de ser consciente. É por isso que o mindfulness está tão associado a ao momento presente - porque trazemos a respiração para o consciente não mais para o inconsciente. Já tem vários estudos comprovando que, além de ativar a neuroplasticidade, também ativa a autopercepção, a autoestima.
  • Músicas em 8D, disponíveis no Spotify. Elas devem ser escutadas com fone de ouvido. São gravadas em trezentos e sessenta graus e é mais ou menos a sensação que ela gera. Ela faz com que tenhamos uma percepção diferente do momento. Com isso ela aumenta a conectividade cerebral e gera sensação de relaxamento. Entre o intervalo de um trabalho e outro, ouvir esse tipo de música pode ser muito importante para gerar essa neuroplasticidade. Existem estudos que mostram que pessoas que sofreram AVC e fizeram um tratamento com musicoterapia, com músicas que elas gostavam, quando elas estavam sadias, percebe-se através de exames, algumas áreas cerebrais voltando a ser ativas por conta da música.