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Vieses cognitivos aplicados à Diversidade

 

Ines Cozzo graduada em Psicologia pela Universidade Metodista, foi Vice-Presidente e curadora técnica da Neurobusiness Society, Palestrante, Consultora e escritora Internacional, aborda o tema “Vieses cognitivos aplicados à Diversidade” com Cibele Marques de Souza, Diretora de Marketing da FasTest Brasil e João Pentagna, sócio-fundador da Atingir +.

 

Tópicos abordados neste Epísódio:

- Como os vieses podem fomentar os preconceitos

- Viés da Confirmação e a Diversidade

- O trabalho de diversidade nas empresas sobre a ótica da Neurociência

- O caminho para administrar os vieses que induzem ao preconceito e inibem a diversidade

Inês se apresenta e fala que trabalha, há 40 anos, com Psicologia e Neurociência aplicada ao desenvolvimento de pessoas e negócios. Tem também um curso de formação desde 2006.

 

Inês contextualiza como o cérebro forma o preconceito. Na formação do preconceito já temos 2 vieses. Cita uma criança de 1~2 anos tentando abrir uma porta, sendo que ninguém a ensinou como esse processo funciona. O cérebro escaneia o evento porta e ele vai descartando tudo que seja irrelevante para seu funcionamento. Neste caso temos o viés de saliência pois, para abrir a porta, a criança precisa apenas aprender o que é “trinco”. Ao mesmo tempo que demoramos tanto tempo para aprender a abrir uma simples porta, quando o cérebro aprendeu a abrir uma, ele aprendeu a abrir todas. O mesmo ocorre para dirigir um carro. Aprendemos a dirigir um e somos capazes de dirigir outros.

 

O cérebro vem, ao longo do processo evolutivo, aprendendo e reforçando cada vez mais que, generalizar não só faz com que aprendamos mais, melhor e mais rápido, mais garante a sobrevivência. Faz isso para porta, carro e para gente. Quando batemos o olho em uma pessoa pela primeira com vez na vida, em menos de 1/20 de segundo, nosso cérebro a escaneia e vai fazer uma comparação com todo mundo que já nos relacionamos, na vida. Se der “match” com alguém que gostamos, seremos amigos. Se der “match” com alguém que já tenha me causado prejuízo ou dor, o “santo não vai bater”. Isso vale para nome, tom de voz, rosto e infinitos elementos.

 

Aqui temos um atalho que pode causar um desvio sistemático de lógica, uma decisão equivocada ao acharmos que uma pessoa não é boa. Os vieses são inconscientes até o momento que estudamos ou aprendemos sobre eles, quando encontramos alguém não podemos impedir de sentir o que sentimos em 1/20 de segundo, mas podemos não emitir o juízo de valor e não nos comportarmos de forma preconceituosa ou excludente. Sentir é sistema 1, comportamentos é sistema 2, por isso que o nome correto deveria ser viés cognitivo. São as formas como nosso cérebro aprende e, que na medida que conhecemos, isso venha para a consciência para gerenciar o que aconteceu no piloto automático.

 

Junto com esse viés de saliência vem outro, de ancoragem, efeito priming. Estamos muito mais refém das primeiras informações que recebemos do que pensamos. Por exemplo, uma criança pequena que escuta o tempo todo, na família e amigos, que “homem é tudo igual”, que “mulher é falsa”, não será necessário que seu cérebro dê “match” com ninguém para bater o olho em um gênero/estereótipo e lhe atribuir um sentimento negativo por tudo o que ela escutou e nunca questionou.

 

Konrad Lorenz, etólogo que ganhou o Nobel de Medicina de 1976, estudou o efeito priming através da observação dos gansos e descobriu que, quando o ovo chocava, a primeira coisa que o filhote visse em movimento, ele gravava no sistema nervoso que era a mãe. A primeira coisa parada que um papagaio vê, ao nascer, ele relaciona com a mãe. É por isso que a maioria dos criadores de pet pagam para crianças acompanharem os bichinhos desde o nascimento para facilitar a domesticação.

 

Lorenz conseguiu demonstrar que os gansos tomam decisões iniciais baseadas no que eles têm disponível no ambiente e, para o resto da vida, eles mantem suas decisões. No caso deles é uma programação genético e não tem como mudar. A razão pela qual ele ganhou o Nobel de Medicina foi que os humanos também são animais e tendem também a ter inprint.

 

O cérebro humano cresceu tanto que ele é gestado por 9 meses e se completa até a idade de 25~28 anos de idade. Dos 0 aos 7 anos temos os primeiros inprints, somos esponjas de tudo que é feito e dito ao nosso redor. Não é necessário ensinar a uma criança que “mulheres são frágeis”, basta colocá-la em um meio onde as mulheres são tratadas como tal. Mais tarde, na vida, não vai lhe ocorrer que mulheres são fortes.

Inês cita um experimento feito pelo Quebrando o Tabu. Foi colocada para pessoas, em uma avenida de uma grande cidade a seguinte questão: Pai e filho sofrem um acidente e o pai morre. O filho é encaminhado para o hospital e, quando chega lá, a pessoa mais competente do centro cirúrgico diz que não pode operá-lo por ser seu filho.

 

O incrível é que as pessoas pensam em várias possibilidades para a solução do “enigma”, mas praticamente ninguém encontra a resposta óbvia de que a pessoa mais competente do centro cirúrgico era a mãe do menino. Elas pensam em deus, dois pais, reencarnação, mas não na mãe.

Inês salienta que os vieses andam todos de mãos dadas. Esse, por exemplo está relacionado a disponibilidade heurística. Se o mundo disponibiliza muito mais homens em posições estratégicas ou ganhando prêmios, sendo elogiados, promovidos, quando falamos em pessoa mais competente do centro cirúrgico, por incrível que pareça, muitas vezes não se pensa em uma mulher. Esta é uma questão muito mais complexa do que parece uma vez que uma coisa vai se interlaçando com outra.

 

A solução para esse problema, segundo Inês, é a disponibilização de informações sobre mulheres em todos os tipos de posição de destaque. Cita que foi uma mulher que criou a cerveja, o algoritmo e esse tipo de informações vão construindo novas cadeias neurais em cima das antigas. Com esse tipo de informação começa-se a colocar as mulheres em um lugar melhor na cabeça das pessoas. Os estereótipos em si não são o problema, mas os atributos de valor colocados sobre eles – daí o preconceito.

 

Um exemplo notório para a heurística de disponibilidade são as pessoas que dizem que não há problema em fumar pois o avô tinha esse hábito e viveu até os 100 anos.

Ela complementa que o viés de confirmação pode atrapalhar muito a diversidade visto que as pessoas com determinada opinião ou estilo de vida tendem a andar em grupos que reforcem suas ideias. Mostra alguns áudios de músicas em inglês que são traduzidas, pela fonética, em português. Nunca mais é possível escutar a música na versão original sem lembrar da versão alterada em menos de 1/20 de segundo, posteriormente é possível fazer a correção.

 

Desta forma, se nos cercamos de gente com o mesmo pensamento, não existe a possibilidade de haver mudanças nos vieses. Tudo que chamamos de crença, aprendizagem, preconceito, mania, hábito, modelo mental, paradigma, em neurociência chamamos de cadeia neural. Tudo que repetimos muito é chamado de cadeia neural e isto vai acontecer em menos de 1/20 de segundos, que são os automatismos ou Sistema 1. Uma vez criada essa cadeia, a única forma de modificar a resposta é trazendo informações para o sistema que contrariem as informações que criaram essa crença.

Ela complementa que o viés de confirmação pode atrapalhar muito a diversidade visto que as pessoas com determinada opinião ou estilo de vida tendem a andar em grupos que reforcem suas ideias. Mostra alguns áudios de músicas em inglês que são traduzidas, pela fonética, em português. Nunca mais é possível escutar a música na versão original sem lembrar da versão alterada em menos de 1/20 de segundo, posteriormente é possível fazer a correção.

 

Desta forma, se nos cercamos de gente com o mesmo pensamento, não existe a possibilidade de haver mudanças nos vieses. Tudo que chamamos de crença, aprendizagem, preconceito, mania, hábito, modelo mental, paradigma, em neurociência chamamos de cadeia neural. Tudo que repetimos muito é chamado de cadeia neural e isto vai acontecer em menos de 1/20 de segundos, que são os automatismos ou Sistema 1. Uma vez criada essa cadeia, a única forma de modificar a resposta é trazendo informações para o sistema que contrariem as informações que criaram essa crença.

 

Quando somos crianças e acreditamos em Papai Noel, estamos na zona de conforto para aquela crença. No entanto, com o tempo, vamos sendo submetidos a situações que nos colocam em dúvida sobre sua existência. Desta etapa de dúvida, passamos para o esclarecimento onde não acreditamos mais naquele personagem.

 

Trabalhar com Neurociência para a diversidade dentro das empresas traz algumas vantagens:

- Não é estatística nem opinativa, mas baseada em pesquisas e fatos. Todos os seres humanos mostram seus comportamentos através de processos eletroquímicos, tem a mesma distribuição funcional do cérebro o que nos torna igual enquanto espécie.

- Atalho – se é algo que funciona para 100% para os humanos, aceleramos muito mais os resultados do que se considerar qualquer outra ciência que sirva para um percentual menor de pessoas

- Falar sobre o assunto é fundamental para ocorrer mudanças.

Inês ressalta que o autoconhecimento e a alto percepção são fundamentais no combate ao preconceito. Todo conceito é uma aprendizagem a partir de um conjunto de dados. Todo preconceito, idem, mas baseado em dados distorcidos ou inventados. Precisamos admitir, sem culpa e sem vergonha, nossos preconceitos em algum grau.

 

Somos todos preconceituosos em desconstrução. À medida que somos impactados por uma explicação de como funcionamos, vamos gerenciando isso, usando os próprios vieses. Existe um viés chamado do ponto cego. Graças aos mecanismos de defesa, autoestima, autoconfiança, autoimagem, temos mais facilidade em enxergarmos defeitos nos outros do que em nós mesmos. A maior parte das pessoas no mundo corporativo prática este viés quando deparado com uma pessoa que acabou de praticar um ato preconceituoso qualquer, mas não vê o seu quando o emite. Neste caso pode-se utilizar este viés, mas com empatia e acolhimento.

 

Cita que um dos maiores desafios para se conseguir a equidade e inclusão é não excluir o exclusor, o preconceituoso. Preconceito é uma ignorância que precisa ser revertida com educação. Primeiramente se acolhe com respeito e, depois, educa esta pessoa preconceituosa. Não se muda um hábito em 21 dias, é um processo e as valências emocionais positivas e negativas.

 

Neurologicamente falando a frase da música “...um joelho ralado dói bem menos do que um coração partido” está errada, mas psicologicamente, 100% correta. O cérebro humano é o órgão consome de 20 a 25% de todo oxigênio do corpo, mas não tem área de armazenamento. Segundo pesquisas de neurociência, processamos qualquer tipo de dor nas mesmas regiões e com a mesma intensidade – a física e a social (rejeição, humilhação, injustiça, discriminação, traição, exclusão). Uma vez curada uma dor física, o cérebro não irá mais processá-la, mas uma dor causada pelo ambiente, o sinal de dor é necessário e constante. Um grupo de pessoas minorizadas como negros, homossexuais e mulheres, por exemplo, que continua sofrendo preconceito, o cérebro continua emitindo sinais de dor social para que essas pessoas providenciem comportamentos que garantam suas sobrevivências e pertencimento. Dói mais porque dói continuamente.